A regra da “pele em jogo” na política

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Escrito por João Felipe Jucá, Diretor-Adjunto Financeiro do ILA – Instituto Liberal de Alagoas

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Karl Popper, um dos maiores intelectuais do século XX, estabeleceu um critério demarcador da ciência: o da Falseabilidade[i], que nada mais é do que a possibilidade de submeter a teste qualquer hipótese plausível. Portanto, descarta-se de imediato as hipóteses não-testáveis e as que são tão abrangentes que contenham fundamentos para dar explicação a dois fenômenos contraditórios.

Como por exemplo, a narrativa do golpe levantada no impeachment sofrido por Dilma Rousseff (hipótese inicial), qualquer fato que venha a ocorrer posteriormente apenas corrobora a hipótese inicial de que houve realmente um coup d’etat. Absolutamente nenhuma evidência pode ser usada para falsear a narrativa do golpe, apenas para confirmá-la:

Como pode ser golpe se o rito foi regulamentado pela suprema corte com direito a ampla defesa e devido processo legal?

É que os golpistas queriam legitimar o processo para dar um ar de legalidade. Notoriamente, para aumentar a adesão ao golpe.

Outra narrativa (hipótese) levantada pelo mesmo grupo e endossada por alguns jornalistas era de que a Lava-Jato seria seletiva, voltada para punir filiados e políticos do Partido dos Trabalhadores (PT). Igualmente impossível de ser falseada, pois quando a operação começou a punir inimigos políticos do PT, o desdobramento da narrativa inicial foi a de que puniriam alguns políticos de outros partidos, para poderem chegar ao Lula, mas que a Lava-Jato continuaria seletiva.

No entanto, dizer que essas hipóteses não são científicas pouco importa para a discussão sobre a política. Todos que sustentaram essas hipóteses – que se provaram sem fundamentos meses depois – continuam ocupando o mesmo espaço nos veículos de comunicação e suas tergiversações, seus subterfúgios continuam a se propagar.

Mais recente que Popper, Nassim Taleb propôs um filtro melhor para descartar esse tipo de hipótese ruim que na verdade mais atrapalha do que auxilia a entender a realidade: é a heurística da pele em jogo[ii]. Ele diz que só se interessa pelas opiniões das pessoas que realmente estão arriscando alguma coisa com aquela afirmação, o resto é palpite.

A título de exemplo farei um breve relato pessoal onde um professor que tive, na universidade federal, declarou que entregaria o seu emprego caso o Aécio Neves fosse eleito Presidente da República nas eleições de 2014. Não considero uma atitude sensata, porém, ele realmente estava colocando a pele em jogo para sustentar a hipótese (implícita) de que a administração tucana é ruim. E isso é respeitável. Quantos que gritaram que “impeachment é golpe” cogitaram realmente deixar o país com a sua consolidação? Quantos entregaram seus empregos públicos na administração pública federal ou entidades “golpistas”?

Ao colocar a pele em jogo, o professor posicionou-se de forma antifrágil, ou seja, sairia ganhando em qualquer hipótese (i.e. se ele realmente entregasse o cargo). Caso Dilma Rousseff ganhasse o professor sairia fortalecido, pois tinha colocado sua pele em jogo, seu candidato haveria sido reeleito, ele continuaria com seu emprego e as pessoas dariam mais valor a suas opiniões (teoricamente); caso Aécio Neves fosse eleito – e ele sustentasse sua posição – perderia o emprego, mas sua posição sairia fortalecida, pois a entrega do cargo corroboraria com a hipótese inicial de que a administração tucana é ruim.

Note que aqui há uma enorme diferença entre tentar prever o que acontecerá e colocar a pele em risco em suas opiniões. É que há uma presunção de que quando existe algo em jogo, as pessoas serão mais cautelosas ao tomarem decisões e evitarão um grau muito alto de incerteza.

Não se trata também de suprimir qualquer corrente de um debate político, mas apenas de selecionar melhor aquelas que merecem ser ouvidas. Evitando sempre as opiniões mais histriônicas, pois em fenômenos complexos, como a política, que dependem de inúmeros atores e fatores envolvidos, a tendência é o equilíbrio.

Obs.: Após o “golpe” que vitimou a (ex-)presidente Dilma Rousseff o professor continua trabalhando na universidade federal, agora, para os “golpistas”.

 

Referências:

[i] O princípio da Falseabilidade e a Ciência em Popper: http://brasilescola.uol.com.br/filosofia/o-principio-falseabilidade-nocao-ciencia-karl-popper.htm

[ii] A importância de ter a própria “pele em jogo” – os ensinamentos sempre perspicazes de Nassim Taleb: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2685